NOSSOS PERCURSOS

Nossos percursos na construção de uma prática política investigativa: a Militiva

 

É possível fazer pesquisa a partir dos saberes e dos conhecimentos que construímos dia a dia na lida com a terra, com a casa, com os nossos corpos, nossos territórios e na vivência com outras mulheres? Como sistematizamos os saberes e os conhecimentos de nosso dia a dia e os transformamos em instrumentos de leitura da realidade?

 

Essas questões não apareceram pra gente da noite para o dia. Elas foram se anunciando à medida que nos encontramos motivadas a levar adiante uma pesquisa militante para mapear os conflitos socioambientais e as alternativas insurgentes nos nossos territórios, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a partir das vivências, dos olhares e das práticas das mulheres.

A proposta de realização de uma pesquisa militante surgiu no Instituto Políticas alternativas para o Cone Sul (Pacs) após muitos anos de atuação conjunta com movimentos sociais na Zona Oeste. No ano de 2015,  nos reunimos (cerca de 25 mulheres de diversas organizações) para planejar a construção coletiva deste trabalho que seguiria por três anos.

 

Partimos do entendimento de que a construção compartilhada da pesquisa poderia fazer desta um instrumento que contribuísse para visibilizar e projetar a vivência das mulheres a partir da cotidianidade da luta. Além disso, a sistematização coletiva de experiências e olhares sobre situações de opressão vividas viria a fortalecer, simultaneamente, nossas redes e territórios de resistência e construção de alternativas de poder.

 A proposta se dividia em quatro etapas:

1. A construção coletiva de leituras de território avançando na compreensão da relação entre os conflitos ambientais e os impactos nas vidas das mulheres, incluindo nosso território-corpo, através de caravanas territoriais, andanças, atos públicos, oficinas, rodas de conversa, escuta e acolhimento;

 

2. A construção coletiva de conceitos sobre as temáticas trabalhadas a partir das vivências desde os territórios;

 

3. O aprofundamento do trabalho em coletivas menores por território no que poderíamos chamar de “trabalho investigativo” a partir das resistências cotidianas das mulheres; 4. A construção final de uma cartografia feminista para comunicar uma pauta política elaborada por essa coletividade.

Ao final do primeiro ano, 2016, a realização do seminário Corpo, conhecimento e conflito: territórios feministas em disputa marcou um momento de virada. A proposta da pesquisa militante foi sendo subvertida e apropriada pelas mulheres, resultando na formação da Coletiva de Militância Investigativa da Zona Oeste. A Coletiva passou então a debater os rumos das ações junto às mulheres protagonizando práticas de resistência em cada território da Baía de Sepetiba ao Maciço da Pedra Branca. Cada equipe territorial, como se organizaram, caminhou com sua prática política investigativa, de acordo com o contexto local. 

Finalmente, no início do terceiro e último ano de trabalho, 2018, o esforço de síntese e comunicação política foi agrupado em um mapa que anuncia as violações e resistências na Zona Oeste pela ótica das mulheres: Enfrentamentos aos Racismos pelos Olhares das Mulheres.

 

Esta página virtual busca apresentar o processo com suas etapas e coloca a possibilidade desta experiência ser compartilhada. Nesse percurso, lidamos com as contradições da construção compartilhada de conhecimentos. E apesar dos desafios, foram inúmeras as aprendizagens nesse intenso trabalho de reflexão, ação e tomada de decisão conjunta.

Há ainda muito trabalho de sistematização a ser feito por nós. Inclusive sobre a forma de construir auto-organização e conhecimentos, imaginada, sentida e vivida a partir da enorme criatividade e compromisso político que levamos na luta: a Militância Investigativa

 

Hoje, mais que uma Coletiva, entendemos que a Militiva constitui o que pode ser chamado por uns de metodologia, para nós, uma prática política feminista, de construir conhecimentos desde os territórios.

Nessa seção compartilhamos com vocês textos, vídeos e outros materiais que contam um pouco de nossa construção que segue em permanente movimento 

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