DA INVISIBILIDADE À RESISTÊNCIA

Militância investigativa e a defesa dos territórios

Por toda América Latina, nossa Abya Yala, mulheres e feminismos diversos contestam a invisibilidade de nossas vivências de resistência diante dos avanços de um modelo de desenvolvimento capitalista, patriarcal e racista que explora e esgota os bens naturais, nossos trabalhos, vidas e corpos. Nossas resistências constroem alternativas para o bem viver desde os territórios.

Na Zona Oeste do Rio de Janeiro não é diferente. Cidade cada vez mais mercantilizada, segregada racialmente e militarizada, divida artificialmente pelo Estado em zonas que expressam os privilégios das elites endinheiradas e dominantes: Sul, Centro, Norte, e Oeste.

 

Esta última região concentra a área mais extensa geograficamente, a maior agrobiodiversidade, com rios, matas, baías, mangues, povos e comunidades de agricultoras, pescadoras, marisqueiras, quilombolas, faveladas, trabalhadoras e educadoras que conformam um verdadeiro quilombo ampliado. Vale ressaltar também a presença de áreas ainda não destruídas de memória de povos indígenas. Da Baía de Sepetiba à Baixada de Jacarepaguá, no entanto, multiplicam-se as ameaças e conflitos ambientais em decorrência de grandes projetos que tratam os territórios como espaços vazios e as populações que os habitamos como “obstáculos” ou “resíduos” a serem eliminados em nome do “progresso”


Tentam nos varrer do mapa, mas trazemos saberes de milenar resistência! E por isso travamos a disputa com os mapas e representações oficiais, expondo a leitura política de nossa existência através de um mapa traçado por nós, mulheres moradoras e militantes na Zona Oeste: Enfrentamentos aos Racismos pelos Olhares das Mulheres é uma cartografia feminista, construída coletivamente passo a passo no chão dos nossos territórios.

Ela não pretende oferecer uma representação perfeita, acabada e única da região. Ao contrário, trata-se de olhares para pensar a realidade e atuar sobre ela. Para irrompermos contra os muros de silenciamento, denunciar as inúmeras violências que nos atingem, os racismos que as atravessam e as histórias que marcam a cotidianidade de nossa luta.

Essa Cartografia Feminista surge como instrumento de síntese e comunicação das aprendizagens após dois anos de trabalho em que desenvolvemos uma  forma de construir auto-organização e conhecimentos imaginada, sentida e vivida a partir da enorme criatividade e compromisso político que levamos na lida: a militância investigativa. Ela não esgota, portanto, as reflexões e conhecimentos construídos por nós, mas traz uma importante mensagem política desde nossas vivências.  

Todas as definições na consolidação das informações foram realizadas por nós: os nomes que vocês encontram no mapa, os detalhes dos desenhos/ícones, assim como a escrita coletiva dos textos. A base cartográfica escolhida localiza a Zona Oeste na cidade do Rio de Janeiro, mas não reproduz as fronteiras administrativas entre bairros: não são elas limites à nossa reflexão, nem nossos referenciais de vida. Nosso mapa é delimitado pelos Maciços – Pedra Branca, Tijuca e Mendanha-Gericinó - e pelas bacias hidrográficas com os rios vivos que pulsam no território. Em nosso mapa a Zona Oeste existe e resiste como força política. E nos caminhos desses rios chegamos a Baixada Fluminense, outro tipo de regionalismo, das pertenças e vínculos entre as pessoas.

Na sessão “Nossos Percursos” contamos mais sobre a construção de nossa prática política investigativa, construída nas margens da cidade pelo feminismo de periferia.